Manual da Sapatão – parte III

De Girina no Brejo a Sapa Veterana

Nesse terceiro estágio, a sapa vai pro brejo. A parte da cultura é legal, mas toda lésbica que se preze precisa de amigos, de ver outras sapinhas, namorar, enfim, se sociabilizar no meio. Ter netsexing, sua própria rede sócio-sexual, e entrar para o mundo.

Quando a gente sai do meio hetero, faz mais parte dele, ou vive num lugar comum, em que há mais pessoas hetero que homossexuais, a bola da vez ao nos percebermos lésbica é utilizarmos nosso instinto básico: o gaydar – conhecido também como lesbiômetro ou gayômetro –, com o qual reconhecemos os outros, nossos amigos “aliados”. Os psicólogos o denominam de “identificação homoafetiva”: um homossexual identifica um outro homossexual pela energia. Algumas mais interiorizadas vão por aí. Notam pela intuição. Mas nem sempre é assim que funciona.

Uma lésbica apresenta sintomas. É possível distinguir uma mulher hetero duma mulher lésbica observando os traços de personalidade e de aparência. Claro que cada caso é um caso. Para isso também existem categorias. Isso. Até lésbica tem tipo:

– Butch: é aquela meio que na cara. Você olha e já sabe que é. Só as mais desatentas (as muito desatentas) não percebem. Normalmente de cabelo curto, usa blusa de manguinha, camiseta regata, bermudão, calças folgadas, usa tênis, sapatênis, boné; sem acessórios, sem maquiagem, sem esmalte; jeito de durona, ou aparentando alguma frieza, um tal trejeito largado, despojado. A butch, o bofinho, o machinho, o boy é tida como uma lésbica masculina.

Um subtipo da butch é a caminhoneira. Essas são aquelas invocadas, fortes, da pesada, sem aquela atraência física toda, ou simpatia.

– Lady: a tal lésbica de aparência e trejeitos femininos. Você nota desde a fala à indumentária. Vestidos, saias, brincos, colares, pulseiras, anéis, maquiagem, cabelos compridos; jeitinho suave, aqueles modos mais faceiros. Engana qualquer um. Só as muito boas no gaydar percebem que esta é lésbica. Em especial e principalmente porque rola atração, e no dia-a-dia, porque ela não vai se interessar por homens.

– Neutra: essa já nem é tão masculina nem tão feminina. Um meio termo, ou nenhuma das duas. Alguém que levanta suspeitas, a da pergunta “será que ela é?”. A maioria das lésbicas são assim, cá para nós. O bom das neutras são as possibilidades. Acho que são mais aquelas modernosas, com cortes de cabelos e roupas alternativas, fashionistas. Já a chamaram também de “kiki”.

Se bem que esse negócio de tipo, tem mais a ver com a aparência, com o estilo da pessoa. Envolve, sim, e claro, elementos da personalidade – a gente expressa visualmente nosso interior também. Lembrando que nada é absoluto, principalmente em se tratando de pessoas, nem sempre podemos ser extremistas. Dizem por aí que as ladies usam scarpins, e as butches, pochetes. Talvez sim. Há variáveis. Pochetes podem ser mochilas de costas, e outro salto alto pode substituir um scarpin.

Scarpins e Pochete

Além de tudo também tem outras coisas. As unhas bem curtinhas são o básico. Lésbica fazer sexo de unha grande é pecado sapatal. Uma forma de identificar lésbica também pelas mãos? Mulher que usa anel de compromisso e não fala nunca da pessoa. E voz de lésbica. Sabe voz de lésbica? Até as femininas têm isso. Algo entre palatado e anasalado, fica bem no meio. Uma voz aguda meio masculinizada. Tem umas que são mais características, outras menos, mas têm um quê de sapa, sim.

E sapa que é sapa tem uns hábitos que parece que são generalizados. Cultura lésbica nem todo mundo acompanha, é verdade. Mas sapatão tem uma tendência de gostar de tomar uma cervejinha que é um negócio sério. Fumar uns cigarrinhos, dar umas tragadas. Tocar violão. Gostar de futebol. Gostar de MPB. Reparou que nossas cantoras lésbicas são de MPB? É comum a tatuagem (tatuagem na batata da perna, nossa), o piercing – esse aí em qualquer lugar, já.

Tem mais: profissão de lésbica. Umas áreas chamam mais. Não significam que todas da área sejam, não. Mas parece que existe uma identificação com o ofício, não sei. Advogada, a área jurídica. Enfermagem, tem muitas. Design gráfica, artista plástica, webdesigner, o que seja, nem que seja decoração. Fotografia – generalizado, essa tem demais. Educação física (aquela sua professora do ensino médio…), esportes em geral (já ouviu falar na Rebeca Gusmão?). E nas artes sempre há lésbicas e gays, nem é novidade contar. Teatro, cinema, artes plásticas, música, literatura.

Aí sim, o principal do meio sapatal. Girina recém-chegada se assusta, as de mente mais fechada recriminam. Entretanto, não é nada mais do que a pura realidade do brejo. Captou? É o famoso rebu. O rebuceteio. Aquele papo da sua namorada que ficou com sua amiga, que namorou com sua outra amiga, que teve caso com a ex da sua namorada, que transou com sua ex. E por acaso todas saem juntas, riem juntas, e ninguém toca nesse assunto.

2 Respostas to “Manual da Sapatão – parte III”

  1. Laiz Says:

    O rebuceteio é a pior parte, taí uma coisa q eu realmente naum gosto e naum consigo entender nos brejos. Pode dizer que eu tenho a mente fechada, mas na real o q eu tenho mesmo é ciumes e desapego de ex. rsrs.

    Muito bom o blog, tou adorando esse manual!😄

    =***

  2. Mallika de Lakme Says:

    Caraca.
    Esse conjunto de posts está ma-ra-vi-lho-so.
    Acho que a sociedade científica GLBTT deveria patrocinar a impressão desse manual e distribuir nos eventos por aí.. sim, pq eu tô cansada de ganhar uma camisinha que eu não uso (e faço doação pras bee).
    As bolachinhas merecem uma coisinha melhor.
    Fantástico!

    Nem sou de mandar beijo, mas vou abrir exceção.
    Bjs

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