Reflexões sobre o preconceito

Primeiro deixar claro que o texto presente não tem valor de dissertação ou artigo científico. E justificar que, como livre-pensador, tenho o direito de filosofar um pouquinho.

Andei pensando, quebrando a cabeça mesmo para entender um pouco como funciona o preconceito na cabeça das pessoas. Obviamente é uma característica cultural. Se aprende com a família e com a convivência em sociedade. Logo, é adquirido. Tudo que é adquirido pode ser desaprendido, retirado, desconstruído. Eis a questão aí. Não é fácil desaprender o preconceito, e, na minha opinião, como vocês vão ver, chega a ser uma questão de “inteligência”.

Mecanismo do preconceito: julgamento inadequado

Como funciona o preconceito? Bom, na minha cabeça é um julgamento inadequado, causado por um ponto de vista distorcido ou limitado demais. Por exemplo um ponto de vista distorcido: “É lésbica porque nunca teve um homem de verdade na vida”. Não é bem assim, óbvio que não. Tanta gente sabe que homos são homos desde criança, e um bom hétero para eles não faz diferença alguma. Um ponto de vista limitado: “Todo negro é pobre e ladrão”. Sabemos que não é das coisas mais incomuns, mas não são todos. Tem muitos bem esforçados e honestos, fato isso.

Infelizmente vejo o comportamento e o julgamento preconceituoso como uma espécie de violência: social e psicológica. Para  mim há quatro níveis diferentes de expressão do preconceito.

Primeiro, que pode nem ter expressão social, mas apenas dentro da “cabeça” do indivíduo preconceituoso é o da inferiorização do “grupo” a ser mal julgado. Raramente alguém diz, ao estilo hitleriano: “Negros e  judeus são inferiores”. Em geral são expressões e frases “mal colocadas”, que acabam transparecendo: “Aquela garota de cor“, ou “Alguém pode me dar uma explicação razoável por que posso chamar gay de veado, gordo de baleia, branco de lagartixa, mas nunca um negro de macaco?” (Danilo Gentili). É, imagina. Se negros são iguais a macacos, e macacos são animais mais primitivos que seres humanos, então negros são primitivos, ou seja, inferiores. E porque o termo “de cor”? Todos têm cor na pele, até mesmo os albinos. “Homem invisível”, só no cinema.

A atitude de discriminação, é uma classificação ou tipificação acompanhada de inferiorização e exclusão. Até porque há as “tipificações” sem inferiorização, a exemplo dos gays que chamam-se entre si de “veados” e “bichas” – mas a intenção e a ideologia passada através do discurso, nesse caso, não é de inferiorização. Quando alguém diz “Juiz veado, filho duma puta!” tem a intenção de deixar claro que esse juiz é “ruim”, e deveria ser marginalizado. “Tão ruim” e “tão marginalizado” quanto deveriam ser os “veados” os “filhos de prostitutas”.  Óbvio que não é uma agressão direta. Mas é indireta, em geral passada pelo discurso, e serve para a manutenção do preconceito contra os “veadinhos” e as “profissionas do sexo”. Tem o lado também da expressão idiomática – o palavrão que tem como função “chocar” -, mas não deixa de ter essa função social do preconceito também.

Enquanto a discriminação fica no discurso, a exclusão aparece nas relações sociais.  É aquele tal de excluir uma pessoa de classe social mais baixa da conversa ou da formação de opiniões, da tomada de decisões. Ou sequer pensar na possibilidade de se envolver amorosamente com uma pessoa negra, ou asiática, ou de ascendência italiana ou eslava, ou mais acima do peso, ou mais abaixo do peso, ou muito alta ou muito baixa ou qualquer outra coisa. É o não contratar (e quem sabe demitir) alguém por determinada característica fenotípica ou de sexualidade. É o “evitar”. É excluir…

A pior expressão do preconceito é a hostilização do ser humano, coitado, por uma característia intrínseca a ele. A violência se transforma em assédio moral (tortura psicológica), em crime de constrangimento (pôr para fora de um bar dois homos), ou difamação (uma amiga minha está passando por isso, e só porque é lésbica), ou espancamento, estupro, ou quem sabe morte. Chegando neste ponto você pensa o quanto uma ideologia pode se materializar negativamente nas relações sociais. Não é coisa pouca, não. Isso muda a vida das pessoas completamente. Levam homossexuais a levarem uma vida dupla e escondidos, leva um monte de gente por aí a ter menos oportunidades na vida. Leva as mulheres a receberem proporcionalmente menos salário que os homens.

São julgamentos tidos como “certezas absolutas”. Nem por isso há uma maldade grande interna nos indivíduos preconceituosos. Às vezes até há vontade de mudar, mas também uma tal de “inoperância” nesse sentido.

Cegueira voluntária ou involuntária: questão de inteligência

Vejo a justificação da “imutabilidade” do preconceito como uma questão de inteligência – mas os tidos como “inteligentes” não são imunes a cargas culturais obviamente. Trata-se de inteligência, eu digo, pois inteligência não é medida em “QI” (inteligência lógico-matemática e verbal-linguística). Quem sabe o conceito inteligência ultrapasse a Teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner. Esse não o nosso objetivo, conceituar inteligência.

Mas vejamos como parece coisa de quem tem a mente mais “evoluída” ou “sofisticada” aceitar, compreender e tolerar seres humanos, independente de algumas de suas características. Veja bem como compreender que há cisgêneros, intergêneros e transgêneros, que podem ser homossexuais, bissexuais ou heterossexuais (e mais possibilidades além disto) parece mais complexo que apenas conseguir imaginar ou conceber um mundo com homens masculinos e mulheres femininas genéticos e heterossexuais.

Quanto à ideologia mantida com base em preceitos religiosos, uma cultura de intolerância, exclusão, por vezes violência (como no caso da guerra entre Israel e Palestina), é outra falta de “dose de inteligência”. O ser humano nunca se questionar sobre a credibilidade de uma instituição religiosa que professa coisas contraditórias ou absurdas na prática e começar a pensar por si mesmo parece “não muito sofisticado intelectualmente” e “pouco coerente”. É aquela velha história do livro dos Leviticos na bíblia. Mas o mundo tende à desdogmatização religiosa pela cultura da globalização e do cosmopolitanismo, ainda bem.

Por falar em coerência… Imagina, tanta gente idolatra ou admira Kurt Cobain, Janis Joplin, Cassia Eller, Elis Regina, Cazuza, Renato Russo – e eles morreram de overdose ou de aids. Mas se souber que um filho é usuário de drogas, vai querer bater, xingar, expulsar de casa. Se souber que fulano que trabalha ali é “aidético”, vai querer evitar até chegar perto e sentar no mesmo banco que o portador de vírus da aids.

Pois é, parece evidente a necessidade de questionamento e de ajuste, de melhora nos parâmetros de criticidade sobre determinada crença em muitas pessoas. Citando uma frase-tema de uma parada da diversidade aqui de Pernambuco: “Preconceito machuca, amar não”. É. Amar uma pessoa do mesmo sexo não machuca nem mata ninguém. Mas odiar e “apologizar” esse ódio a homossexuais mata sim.

Relações ecológicas

Por último, pensar em relações ecológicas intraespecíficas. No nosso caso, dos seres humanos, vivemos em sociedade. E mesmo dentro da sociedade, há relações de competitividade, mas também de cooperativismo. Daí se explica muita coisa sim.

Numa sociedade preconceituosa, ser branco, rico, heterossexual, homem e não adepto de “hábitos excêntricos” (e. g. fumar maconha, praticar BDSM etc) é mais favorável na manutenção de um alto cargo numa empresa. Mas, absolutamente, há coisas que se adquirem, há coisas que são inatas. Às vezes a gente não escolhe ter nascido assim, o que somos nem causa défict em nada, e somos vítima de preconceito. Ou seja: injustiça, por valores distorcidos.

Lembrando que somos nós mesmos que fazemos a sociedade ser o que é. Não dá para viver inferiorizando os outros, mesmo que essa alguém tenha uma deficiência. É uma política cruel de vida. Às vezes união e cooperação nos trazem coisas muito mais positivas do que o ódio e a discriminação. De qualquer jeito, é tudo ser humano. Estamos num mundo em que temos apenas uma característica em comum com todos: ser diferente, exclusivo.

13 Respostas to “Reflexões sobre o preconceito”

  1. Marcia Paula Says:

    Eu gosto da definição de inteligência de Bertrand Russell que diz mais ou menos assim: inteligência é a capacidade de transmitir ideias, de ser compreendido.Até aí ponto final, é bem simples, mas eu acrescentaria: a verdadeira inteligência é aquela voltada para as coisas do espírito, da alma(não quero dizer nada do tipo religião, considero a religião uma das piores formas de manipulação).O ponto mais importante do seu discurso é a frase “pensar por si mesmo”.Eu aprendi que as pessoas “absorvem” o discurso, depois “questionam” o mesmo e finalmente “aplicam” um discurso próprio.Todavia as pessoas são ensinadas que dois mais dois são quatro, mas não são estimuladas a pensar, a questionar. Por isso Bertrand Russel, por exemplo, perdeu uma excelente oportunidade de emprego por que era agnóstico.Um abraço.

    • Leonardo Says:

      Pois é, pra mim é um dos grandes problemas a ser resolvido pelo sistema educacional no Brasil: “as pessoas são ensinadas que dois mais dois são quatro, mas não são estimuladas a pensar, a questionar”. Falou e disse, Marcia Paula. Agora, quanto à definição de inteligência, penso que é algo relacionado à capacidade de executar ações qualitativas, em todos os campos (mental, sentimental, social, físico etc etc).

    • Paula Says:

      gostei da sua observação, vamos nos comunicar? entra no meu twitter: paulinharecife

      beijos

  2. Paula Says:

    ô Leo, adorei o texto. Que bom vc ter refletido sobre o assunto e ter nos presenteado com suas impressões, observações e conclusões. Só queria acrescentar algo que também é um forte alvo do preconceito e que, explicitamente, não foi mencionado: os deficientes físicos, deficientes mentais, os incapazes que precisam ser tutelados ou curatelados e por aí vai. Mas no final das contas, você foi show neste texto. As pessoas precisam ler mais sobre estas questões pra intronizar mesmo o conceito so ser como SER.

    UM BEIJO ENORME EM VOCÊ

  3. Lígia Luanda Says:

    Tenho a impressão de que a maioria dos governos e fontes de poder não vão querer criar populações que realmente pensem que questionem. Moro na Inglaterra e tenho um amigo de Ghana. Ele me disse que não aprenderam na escola o papel da Inglaterra na escravização dos africanos, apesar de aprenderem sobre a escravidão dos africanos. Ele cresceu o pai dele repetindo a mesma história várias vezes com a intenção de fazer com que ele também não esquecesse o que aconteceu com os povos de Ghana por causa da Inglaterra.

    Outra coisa: Aff, te admiro muito porque você escreve bem. Rs…

  4. Pierrot Says:

    Não tem um texto teu que seja ruim, e esse agora, achei fantastico. Cada dia o preconceito vai moldando uma forma diferente, e deixando a sociedade mais hipocrita, mas muita gente, diz que aceita, mas aceita, por uma questão de se mostrar intelctualizada, cabeça aberta, quando a maioria gostaria de diminuir, ridicularizar aquilo. Apesar de ter a sorte de na rua as vezes ser mais aceita que em casa, onde tudo se torna bem mais complicado, é uma forma de saber que tem muita gente ruim e sem carater, mas muita gente boa pra te ajudar e ficar ao teu lado quando você precisa. Parabéns pelos textos Léo. Abraços ^^

  5. André HP Says:

    Achei vários preconceitos no seu próprio discurso, um exemplo:

    “Todo negro é pobre e ladrão”. Sabemos que não é das coisas mais incomuns, mas não são todos. Tem muitos bem esforçados e honestos, fato isso.”

    quer dizer que pobre e ladrão não é esforçado nem honesto? certeza? quer dizer é preciso ser esforçado e honesto para não ser pobre e ladrão?

    “Infelizmente vejo o comportamento e o julgamento preconceituoso como uma espécie de violência: social e psicológica.”
    o que bordieu chamaria de violência simbólica. o preconceito simbólico não é problema algum. o problema é com o preconceito pragmático – quando alguém deixa de receber um emprego por sua etnia.

    sempre pensei junto da novilingua. acho que o preconceito acaba quando o verbete “preconceito” sumir do dicionário. discussões como as suas só colaboram para manutenção do fenômeno.

    tentar explicá-lo, e dizer que é uma coisa ruim todos sabem. fica até redundante. todo mundos sabe que é uma coisa ruim, e só acabará quando esquecer que existe esse gênero de fenômeno social.

    • Leonardo Says:

      Pois é… Adoro a classe média que vive dentro de uma bolha e acha que tem consciência social. Você já morou numa favela, filho? Sabe como funcionam as coisas? Eu já morei. As pessoas não têm emprego, não têm profissionalização. Não têm dinheiro. Quando a coisa aperta em casa é até que comum garotas se prostituírem e rapazes roubarem e entrarem para o tráfico. Sabia disso? Bom, é comum você estar naquela conversa boba de final de tarde e alguém comentar: “Sabe fulano? Foi morto com 10 tiros ontem”. Se você for procurar estatísticas mesmo, estupros acontecem em regiões de baixo padrão de vida. Bairros paupérrimos. Daí você tira como funciona a coisa. Se a gente sabe que tem muito negro/afrodescendente pobre (eu estudei e colégios de classe média e sei que há um negro ou outro lá dentro) e que no meio mais pobre é comum esse tipo de coisa “mais pesada”, daí você tira. Não é preciso estudar filosofia ou ler estatísticas pra saber que existe essa realidade social.

      Agora tem os “brancos” que roubam porque têm poder… Tem muita gente por aí que sonega impostos… Aí é outra questão, óbvio. Não estou falando no texto de grupos sociais favorecidos e sim de desfavorecidos.

  6. Fabricio Viana Says:

    Mesmo sem “credibilidade cientifica”, para quem tem só 20 anos, você mandou super bem. Excelente texto e ótimas idéias. Faltou, claro, mostrar a origem (ou uma das principais e mais fortes) que levam ao preconceito. Porque existe a “necessidade” de inferiorizar o outro? Ae entra a dinâmica psíquica do machismo que, resumidamente, esta no meu livro O Armário ou, em forma de um ensaio psicologico profundo, no livro Seis Balas Num Buraco Só, de João S. Trevisam. Quando puder leia. Você é inteligente e a leitura de um ou outro só irá ajudar em suas futuras reflexões. Mais uma vez parabéns. E obrigado pelo link para meu blog. Vou ligar o seu também no meu. Só arruma lá pq ta indo para uma subpasta antiga. Bota pro http://www.fabricioviana.com mesmo. Grande abraço e vou passar mais vezes aqui. Tenta incluir o “Google Friend Connect” no blog. Abs, Fabricio

  7. Filipe Pereira Says:

    Olá! Conheci o blog hoje e estou gostando muito de ler os seus textos! As impressões que você registrou neste coincidem, em sua maioria, com as minhas, especialmente a análise que você faz da expressão “Juíz veado”. Eu só não entendo, e não concordo, com a hostilidade homossexual contra as religiões. Se existem religiões que nos ofendem, nós, mais do que ninguém, sabemos que este não é o melhor caminho para resolver as diferenças. Outro ponto é tentar separar a “instituição” religiosa dos crentes que formam essa religião. A instituição pode demorar a mudar, mas a mudança já pode estar em curso dentro das religiões, a partir daqueles que estão inseridas nelas. Abraço!

    • Leonardo Says:

      Seja bem vindo, Felipe. É, a linguística também fala sobre os significados reais do discurso. Eu não acredito em religiões e não tenho dogmas religiosos, por isso não tomo parte da hostilidade ou crítica a nenhuma. Mas percebo sim um tom gente de ironia e descredibilidade que alguns LGBT’s atribuem a eles. E na verdade compreendo os motivos. Abraços.

  8. Fátima López Says:

    Está confirmado o próprio, pobre é preconceituoso ele sempre fica no achismo… Lógico todas regras tem sua excessões; porém a maioria não se acham capazes.

  9. Roberto Cavalcanti Says:

    http://roberto-cavalcanti.blogspot.com/2011/09/reflexoes-sobre-o-preconceito.html

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